O NASCIMENTO DE IEPÊ

A partir de 1917 várias famílias começaram a chegar ao Sertão dos Patos, no oeste paulista. Essas famílias vinham em busca de uma vida melhor. Eram pequenos agricultores que compraram terras da Companhia Brasileira de Colonização. Esses agricultores pagavam essas terras em várias vezes.
No Sertão dos Patos a vida era difícil. Demoravam-se dias para chegar às cidades mais próximas, como Conceição de Monte Alegre e Assis, e essas viagens eram feitas a pé, a cavalo ou em carroças e carros de boi. Também existiam muitos jagunços, muita violência e insegurança na região.
Com o passar do tempo, foi surgindo uma vilazinha que foi chamada de São Roque. Em 1920 várias pessoas deram dinheiro para comprar as terras onde ficava São Roque. Ajudaram nessa compra católicos e protestantes. Em São Roque foi construída uma capela católica de madeira, e existiam também pequenos comércios, como bar e venda. Também existia um cemitério que ficava no sítio de um senhor chamado Antonio Rafael.
No dia 17 de abril de 1921, na Água dos Patinhos, foi organizada a Igreja Presbiteriana Independente de Três Coqueiros, na casa do casal Tertuliano Machado Coutinho e Brasilina Alves Coutinho – foi esse o início da Igreja Presbiteriana Independente de Iepê.
No São Roque, o povo se reuniu para escolher um representante, e o mais votado, por católicos e protestantes, foi Chico Maria. Francisco Severiano de Almeida, o Chico Maria, era protestante e havia chegado ao Sertão dos Patos em 1918.
Depois que Chico Maria foi escolhido para ser o representante de São Roque, algumas pessoas movidas por preconceito religioso e desejo de poder, não o aceitaram como representante, mesmo ele tendo sido eleito por grande maioria, tanto de pessoas católicas como de pessoas protestantes.
O grupo de pessoas que não aceitou a escolha de Chico Maria, com o apoio do padre Joaquim Nunes de Faria, responsável pela Capela de São Roque, começou uma perseguição aos protestantes. O padre Faria, passando por cima da votação do povo, escolheu três pessoas para dirigir São Roque: Antonio Baiano, Antonio Rafael e Joaquim Faria.
Esses dirigentes começaram a impedir os protestantes de morar em São Roque, de construir uma escola para todas as crianças e até mesmo cercaram o cemitério de São Roque, deixando o túmulo de uma protestante, chamada Maximília, do lado de fora da cerca.
Por causa de todas essas perseguições e preconceitos, no dia 23 de abril de 1923, nasce a ideia de fundar uma cidade onde houvesse liberdade, igualdade, valorização da educação, respeito e direitos para todas as pessoas, não importando religião, cor ou opinião política que tivessem.
Essa decisão aconteceu na casa do senhor João Rufino Sant’Anna, no sítio da Figueira. O nome de Liberdade para o novo patrimônio foi sugerido por Chico Maria, e os dez alqueires de terras para fundar o Patrimônio da Liberdade foram doados por Antonio de Almeida Prado, o Antoninho Maria.
Porém, antes que as ruas do Patrimônio da Liberdade fossem abertas, a perseguição dos dirigentes de São Roque aos protestantes chega ao ponto de impedir que um adolescente, apelidado de Quita, que morreu em 2 de janeiro de 1924, fosse enterrado no cemitério de São Roque. Quita foi enterrado do lado de fora da cerca, no cafezal.
No dia 14 de abril de 1924, num grande mutirão, as ruas do Patrimônio da Liberdade foram abertas e dona Júlia de Almeida Ramos doou as terras para o cemitério da Liberdade. Nesse cemitério todos poderiam ser enterrados, sem nenhum preconceito ou perseguição religiosa.
Nesse mesmo ano, 1924, começa a construção do Templo de madeira da Igreja Presbiteriana Independente, que serviu por algum tempo também como escola.
Depois da fundação do Patrimônio da Liberdade, foi preciso lutar politicamente para que o patrimônio se desenvolvesse. Foram líderes políticos nesses primeiros anos Chico Maria, Jorge Bassil Dower e José Salviano de Almeida.
No ano de 1926, Antoninho Maria deu um terreno para a construção da Igreja Católica no Patrimônio da Liberdade. Essa Igreja ficava na Rua São Paulo. Nesse mesmo ano, Liberdade consegue a criação do Distrito Policial e no ano seguinte, no dia 29 de dezembro de 1927, o Patrimônio tornou-se um Distrito de Paz, podendo com esta conquista ter um cartório.
Porém, como já existia no Estado de São Paulo outro distrito com o nome de Liberdade, foi escolhido o nome Iepê. Iepê é uma palavra da língua Tupi-Guarani, que significa UM ou LUGAR ÚNICO, mas, na cidade de Iepê, devido à história do seu nascimento, passou a ter também o significado cultural e até poético de LIBERDADE.
E assim Iepê foi crescendo, mas ainda era um distrito, não um município. Em 1929 foi criada a primeira escola pública, que funcionava na Rua São Paulo. Na década de 1940, foi criado o Grupo Escolar de Iepê, atual EMEF João Antonio Rodrigues. No dia 21 de junho de 1940 foi inaugurado o Templo de alvenaria da Igreja Presbiteriana Independente de Iepê e em 24 de junho de 1943 foi inaugurado o Templo de alvenaria da Igreja Católica na Rua Alagoas.
Em 4 de fevereiro de 1943 formou-se uma comissão para lutar pela emancipação política de Iepê, ou seja, para que Iepê se tornasse um município. Fizeram parte dessa comissão tanto pessoas católicas como pessoas protestantes. E assim, no dia 30 de novembro de 1944, foi criado o município de Iepê.
O primeiro prefeito nomeado foi o Dr. Agenor Roberto Barbosa. O primeiro prefeito eleito foi João Antonio Rodrigues, que tomou posse no dia 2 de janeiro de 1948, e o primeiro presidente da Câmara de Vereadores foi Odilon Amâncio Taveira.
E assim nasceu Iepê... de um sonho de liberdade!  O que nunca podemos esquecer sobre o nascimento dessa cidade, é que ela nasceu para ser um lugar no qual não houvesse perseguições religiosas e onde fossem respeitados os direitos das pessoas e a liberdade de pensamento e de expressão. Portanto, a cidade nasceu propondo a construção, todos os dias e por todas as pessoas, de uma Cultura de Paz, pois Iepê nasceu para ser “UMA TERRA PARA TODOS”.

Nê Sant'Anna e Paulo Fernando Zaganin Rosa

Fontes: Acervo Histórico Digitalizado Chico Maria, Subsídios para a História de Iepê e relatos orais.

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